Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

13 agosto 2014

A Ilustre Casa de Ramires

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Que bom haver Eça por descobrir! Sobretudo, quando ele mistura a crítica social do seu tempo com incursões medievais. Para mim, não podia ser melhor.

A personagem principal, Gonçalo Mendes Ramires, descende de uma família mais antiga do que o país. Mas carrega o peso dos antepassados como uma cruz. Tendo acabado os estudos em Coimbra, a que se segue a morte do pai, Gonçalo não sabe o que fazer na vida, a fim de igualar as façanhas dos avós. Mais uma vez, Eça de Queirós mostra-nos uma personagem vencida pelo tédio, irresoluta, à procura de uma ocupação que a realize. Este tipo de personalidade foi levado ao cúmulo n' A Capital e também Carlos da Maia apresenta sintomas.

Enfim, qual a melhor solução para atingir a glória? A política, claro! Gonçalo Mendes Ramires ambiciona tornar-se deputado, quiçá ministro. Um colega de curso aconselha-o a escrever sobre um seu antepassado medieval. Além de reabilitar o país, recordando de que raça são feitos os portugueses, trabalhará para a sua carreira política, já que: «a literatura leva a tudo em Portugal (...) de folhetim em folhetim, se chega a S. Bento!»

O Fidalgo da Torre, como Gonçalo é conhecido, lá se põe a escrever a obra, consultando a História de Herculano. Atacam-no receios de plágio, ao basear-se num poema épico, mas desconhecido, de um seu falecido tio. Eça de Queirós mostra-nos as inseguranças e os conflitos de quem se atreve no mundo da escrita e liga, na sua crítica mordaz, o sistema político português, com os seus esquemas e compadrios, ao romancista romântico - as alusões a Alexandre Herculano e a Walter Scott carregam sempre um travo depreciativo.

Destaco um aspeto que me agradou particularmente: a compreensão pela mulher adúltera. Claro que o tema também é tratado n' O Primo Basílio, mas sem haver essa compreensão, até carinho e proteção, por parte de uma outra personagem - se bem que num tom paternalista; mas que se há de esperar de um homem da época?

Em suma: uma incursão deliciosa pela segunda metade do século XIX, como só Eça de Queirós sabe fazer, salpicada com incursões no reinado de D. Afonso II. Recomendo vivamente! Viva o Eça!


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