Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

09 setembro 2013

Os Olhos de Tirésias


Um bom romance sobre um tema que devia ser mais explorado: os portugueses combatentes na 1ª Guerra Mundial. Cristina Drios dá-nos uma boa imagem da miséria desta guerra, descreve muito bem as angústias, os cenários de fim de mundo e a maneira como as pessoas aprendem a viver com tais cataclismos, incluindo crianças.

O enredo salta várias vezes no tempo, pois, à medida que vai contando a história do seu avô Mateus Mateus, a narradora conta sobre o seu casamento à beira da rotura, a escrita do próprio romance e a sua viagem à propriedade de La Peylouse, em Saint-Venant, que alojou o Estado-Maior português nos anos 1917-1918. É nesta viagem que ela trava conhecimento com Cyril Eyck, que, além de a confrontar com o falhanço do seu casamento, a conduz ao seu bisavô centenário, possuidor da chave de um dos mistérios envolvendo Mateus Mateus.

Cristina Drios põe-nos em contacto com personagens que aprendem (ou não) a viver com o horror. O órfão Émile Lebecq sobrevive à custa de truques de ilusionismo, que mais não são do que uma maneira de se iludir a si próprio e aos outros; o soldado inglês Alvin Martin fica irremediavelmente traumatizado, sendo-lhe impossível viver sem a sensação de terror permanente; Georgette, uma enfermeira francesa, perde o noivo na guerra e vive uma paixão curta, mas intensa, com o português Mateus Mateus, modificando-o para o resto da sua vida. Há inclusive espaço para o insignificante cabo Adolf Hitler, que vai parar ao hospital com cegueira histérica.

Um excelente romance, mas que, na minha opinião, não deixa de ter os seus defeitos. Achei o início bastante confuso e custou-me a entrar na história. Algumas divagações da narradora no tempo atual tornaram-se-me longas, além de serem difíceis de ler, em itálico (penso que, num romance, se deveria evitar a escrita de blocos de páginas em itálico). E também me irritou um pouco que Mateus Mateus fale, por vezes, na primeira pessoa, e, noutras cenas, seja apenas uma personagem tratada, como as outras, na terceira pessoa.

Finalmente, uma chamada de atenção para erros dados em palavras e expressões alemãs. Tratando-se de um romance finalista do Prémio LeYa, penso que se poderia exigir uma edição cuidadosa até aos mais ínfimos pormenores.

O epitáfio «Hier liegt ein tapferer Portugiesisch» («aqui jaz um português corajoso», pág. 14) contém um erro crasso. A palavra Portugiesich refere-se unicamente ao Português enquanto língua, não ao cidadão português, a palavra correta seria Portugieser. Ich spreche Portugiesich - eu falo Português. Mas ich bin Portugieser - eu sou português. Os alemães fazem esta distinção entre a língua e o natural de um país. Ich spreche Englisch - eu falo Inglês. Mas ich bin Engländer - eu sou inglês.

Admira-me que no grupo LeYa não houvesse alguém capaz de esclarecer sobre esta distinção. Como também ninguém soube que o Parlamento alemão se chama Reichstag e, não, Reichtag, como aparece na página 58.




6 comentários:

Bartolomeu disse...

Não li ainda este livro, mas pelo resumo que apresentas, noto algumas semelhanças ao romance do José Rodrigues dos Santos - A Filha do Capitão. O cenário e a época são os mesmos e o enredo, parece-me que não difere muito...

Cristina Torrão disse...

Sim, eu também me lembrei do romance de José Rodrigues dos Santos por o tema ser o mesmo. E, no fundo, por haver pouca ficção portuguesa sobre a 1ª Guerra Mundial.
Mas as semelhanças ficam-se pelo tema e pelos cenários, a escrita de Cristina Drios é completamente diferente.
Para quem se interessa muito pelo assunto, acho que vale a pena.

Bartolomeu disse...

É de facto estranho não existirem mais autores a explorar o tema da 1ª guerra mundial e do envolvimento de Portugal. Num passado ainda recente, existiam imensos testemunhos vivos, sobretudo nas aldeias, desse período atribulado em que Portugal forneceu carne-para-canhão de borla, ou melhor, pagou caro para a fornecer.
Penso que exista uma certa relutância da parte dos escritores capazes de escrever sobre este assunto, na medida em que, não encontrariam nada de clorioso ou de enaltecedor para relatar. Os portugueses foram naquela guerra, menos que nada. Os que regressaram e as famílias que os receberam, ficaram mais meseráveis que antes, o país ficou mais meserável que antes. No entanto, a História foi escrita e os feitos heroicos de alguns portugueses anónimos, foram tragados pelos fumos tóxicos das granadas e engolidos pelas lamas das trincheiras.

Cristina Torrão disse...

Caro Bartolomeu, um desses testemunhos vivos era um tio transmontano do meu pai, irmão da minha avó, que eu ainda conheci, mas que já faleceu há mais de 20 anos. Viveu mais de noventa anos e ainda me lembro de ele contar sobre as suas peripécias nessa guerra. Mas, infelizmente, não sei dizer nada, nessa altura, eu não me interessava pelo assunto e não ligava às suas narrações. O facto de ele falar um dialeto transmontano muito carregado e de eu o entender mal também aumentava o meu desinteresse. A única coisa de que me lembro é de ele saber cantar a Marselhesa do princípio ao fim, apesar de ser analfabeto e de não saber uma palavra de francês. Se fosse hoje, ia ter com ele munida de um MP3...

Ora aí está igualmente um bom tema de romance: além da guerra em si, a vida que eles e as suas famílias levaram, depois do seu regresso. Portugal nos anos 20. Acho que ainda não li ficção sobre isso.

Bartolomeu disse...

Só agora li o meu comentário anterior e... estou capaz de apostar a sola das minhas botas, em como não escrevi aquelas trocas de letras.
;)))
Sabes Cristina, estas férias andei pela Escócia, fui até à Ilha de Sky, uma paradisíaca maravilha. Não posso afirmar que o país me tenha encantado, mas senti nele uma atmosfera de encantamento. Sobretudo nas terras altas, sente-se ainda a presença dos homens rudes que lutaram contra a tirania do poder real e pela liberdade e e independência. Nessa altura pensei que seria um bom tema para um livro, narrar a nossa História ao teu jeito, mas enquadrando-a num conceito de roteiro turístico. Imaginei uma "coisa" do estilo "As Aventuras dos 5" da Enid Blyton, que fizeram as minhas delícias em criança. Imaginei uma família de turistas a visitar diversas localidades do interior do nosso país, onde se desenrolaram acontecimentos importantes que ditaram a nossa independência e a descobri-los, descobrindo em simultâneo as belezas naturais, a franqueza das gentes, etc.
Penso que este modelo de escrita seja imensamente trabalhoso mas, capaz de interessar um bom número de leitores.

Cristina Torrão disse...

Uma boa ideia, Bartolomeu. Penso que daria uma boa série juvenil. Mas tens razão: seria trabalhoso e dificilmente realizável para uma pessoa só. O apoio de uma editora interessada no tema, pelo menos, seria indispensável.

Quem sabe, um dia, tendo essa tal editora por trás, consigamos nós os dois pôr isso em prática ;) (se, entretanto, ninguém te roubar a ideia...)