Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

05 janeiro 2013

Pequena Abelha


Quase todos somos a favor de que se recambiem os imigrantes ilegais para a sua terra. Pode tratar-se de gente perigosa, além de que dão cabo dos nossos recursos, principalmente, em tempos de crise. O que não se considera é que muitos desses imigrantes viveram o horror, nos seus países, e o regresso pode significar a sua morte.

Considerando os horrores que a Abelhinha, a personagem principal deste romance, viveu no seu país de origem, a Nigéria, todos os nossos problemas, na civilizada e democrática Europa, são insignificantes. Reclamamos de barriga cheia. Mas será mesmo assim? Mesmo que não assistamos ao assassinar da nossa família, ao violar e assassinar das nossas irmãs e mais outras barbaridades, devemos mesnosprezar e relativizar o nosso stress, as nossas frustrações e depressões, que nos podem levar ao suicídio?

Este livro tem o mérito de nos apresentar todos os lados da questão, sem julgar qualquer uma das situações. Somos, apenas, postos a par dos factos, o juízo é nosso. Duas mulheres, uma jovem nigeriana e uma jornalista inglesa, possuem problemas bem diferentes que acabam por se emaranharem uns nos outros, já que o destino quis que as suas vidas se cruzassem.

Chris Cleave administra muito bem a estrutura do texto, nomeadamente, no que diz respeito aos flashbacks. Além disso, equilibra, com mestria, a ironia e a tragédia e mantém-nos suspensos, sem vontade de largar o romance (qualidade de que sinto falta nos escritores portugueses que tenho lido). Apenas o fim me desiludiu um pouco, não por ser descabido, mas por o autor ter alimentado muitas expetativas em vão.

De qualquer maneira, um dos melhores livros que li, talvez o melhor da lista aqui do blogue. Resta-me acrescentar que peguei nele por causa da opinião do Manuel Cardoso.

12 comentários:

Iceman disse...

Viva Cristina.
Não dei por este livro, mas a tua opinião e depois a da Manuel, cativaram-me.

Cristina Torrão disse...

Arrisco dizer que vais gostar, Iceman ;)

André Nuno disse...

Cristina,
antes de mais gostaria de lhe desejar um ótimo 2013.
Considero a sua opinião muito interessante, embora, confesso-o, a renha lido enviesada.
Recebi, porque o pedi, :) este livro no Natal e estou ansioso por lê-lo. Como tenho a mania de saber o mínimo possível sobre o que irei ler fiz por não ver "demais" a sua opinião. Voltarei depois de apreciar a obra mas estou com elevadas expectativas.
Cumps!

Cristina Torrão disse...

Um ótimo 2013 também para si, André Nuno!
Sim, gostaria de ler também a sua opinião :)

Vespinha disse...

Já cá o tenho, com o título The other hand. :)

Rain disse...

Fiquei curiosa, Cristina deve ser um excelente livro. Pelo menos ler sobre todas as coisas faz-nos ter a noção do que por vezes falamos com ligeireza. Beijinho amiga um bom resto de domingo e uma boa semana!

Cat SaDiablo disse...

Também foi um dos melhores do ano para mim. Muitas vezes aterrador e ainda assim não o conseguia largar.

Cristina Torrão disse...

Aterrador em muitas passagens, sim, não é fácil de digerir. Ainda por cima porque parece, à primeira vista, ser escrito com uma certa leveza.

Obrigada e uma boa semana a todos!

André Nuno disse...

Voltei. :)
Já li o livro. Gostei bastante da obra e fiquei satisfeito por ter conhecido mais este autor. Tenho já outro dos seus livros na minha wishlist.
Gostei da forma como em meia dúzia de personagens se narra uma história tão cheia de riqueza. Gostei de ser levado a reflectir nestes assuntos sem nenhuma visão dogmática que me quisessem obrigar a ter. Gostei de quase tudo. E gostei também do fim.
Se me permite discordar, salutar e respeitosamente, de si, penso que durante o romance aquilo que a Cristina encarou como expectivas, como esperança de um final feliz, diria eu, foram sempre para mim sinal que nada poderia acabar bem. Desde o início estava à espera da desgraça seguinte e do desenlace final. Sem desejar parecer maquiavélico pensei que o Charlie se tinha afogado no lago... e o livro não teria perdido nada se fosse esse o caso. Parece-me até, aos meus olhos de leigo, que seria mais lógico esse fim, com essa morte e a prisão sem mais explicações da Abelhinha. Seria mais cabal e definitivo. Como a vida.
Mas no geral, repito-o,gostei bastante e penso que é um grande livro. Muito bom.
Cumps!

Cristina Torrão disse...

Muito obrigada por vir aqui dar a sua opinião, André, gostei muito de a ler.
É interessante que fale do final dessa maneira, porque, no fundo, eu concordo, embora desse a entender outra coisa na minha opinião. Talvez não me tivesse expressado bem. Eu explico: quando falo de expetativas falsamente criadas, refiro-me, concretamente, à fase final, a fase que vem precisamente a seguir ao desaparecimento da criança e, não, ao desenrolar de todo o romance. Não nego que gosto de finais felizes. Mas talvez tivesse sido melhor como o André diz, do que prolongar o enredo com a viagem até à Nigéria, sobretudo, com a surpresa no avião. Não revelo mais, para não tirar o interesse a quem ainda não leu, mas acho que o André já me compreendeu ;)

Cristina Torrão disse...

P.S. Uma rápida consulta ao seu blog mostrou-me que torna a atualizá-lo, o que muito me alegra. Hei de tornar a passar por lá ;)

André Nuno disse...

Muito obrigado, Cristina pelas palavras e pela visita, Cristina. O ano que passou foi, como dizer... díspar. Houve de tudo! Em grande medida não me senti com paciência para estas lides. Acabaria por "despejar" qualquer coisa forçada e preferi afastar-me completamente.
Relativamente à Pequena Abelha (já agora digo que me parece um título no mínimo discutível) penso que estamos de acordo. Aqui entre nós, que ninguém nos vê :) compreendi a viagem com a necessidade de acabar tudo onde começou, com a vontade de revelar o nome da Abelhinha, embora pudesse ter sido conseguido sem este recurso mirabolante, e faltava que o nosso pequeno Charlie rompesse as vestes, não era? A sensação com que fiquei foi a de que o autor se "apressou" em terminar a obra e a coisa não correu pelo melhor. Por outro lado, seguindo a sua sugestão fui ler a opinião do ilustre Manuel Cardoso e achei-a brilhante, tendo este fornecido uma luz nova aos meus olhos relativamente ao final. Uma delícia de opinião.
Venham daí as próximas leituras que por cá andaremos!
Cumps!