Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

13 setembro 2012

Slumdog Millionaire


"O horror... O horror", são as últimas palavras do coronel Walter Kurtz, intrepretado por Marlon Brando, no filme Apocalypse Now. Lembrei-me delas em várias cenas de Slumdog Millionaire, que, em português, tem o título Quem quer ser Bilionário?. O horror parece ser o quotidiano das crianças que vivem nas favelas de Mumbai.

São indescritíveis as provações por que Jamal e o seu irmão mais velho Salim passam, principalmente, depois da morte da mãe, na sequência de uma luta de bandos. Viver numa enorme lixeira a céu aberto é a mais inofensiva, se pensarmos que os dois caiem nas mãos de um gangster que põe crianças a pedir esmolas por ele, chegando a cegar algumas delas (arrancando-lhes os olhos - vá lá, anestesia-as antes) para que provoquem mais piedade nos passantes.


Jamal e Salim conseguem fugir, mas escusado será dizer que se entregam a uma vida criminosa, para sobreviverem. O mais novo, no entanto, permanece puro no seu coração, ao contrário de Salim, que acaba em assassino. Além disso, Jamal vive obcecado com a memória de Latika, uma menina que conheceu enquanto estava no poder do gangster e que perdeu de vista. Com dezoito anos, resolve participar no concurso Quem quer ser milionário, apenas porque sabe que Latika costuma ver esse programa.

O inesperado acontece: o jovem oriundo dos slums, que nunca frequentou a escola, avança até à pergunta final. As respostas são-lhe dadas pela experiência de vida (é assim que a história vai sendo contada, em flashback). Acaba, porém, por despoletar a desconfiança do locutor e é interrogado pela polícia sobre o seu verdadeiro fito em participar no concurso. Também querem descobrir onde arranjou toda aquela sabedoria. A polícia indiana vale-se de métodos de tortura, nos seus interrogatórios, entre eles, dos choques elétricos, que não deixam marcas, para que, nas palavras de um dos polícias, "não tenhamos problemas com esses gajos da Amnistia Internacional".

Enfim, o filme dá uma imagem bem horrível de certas facetas da sociedade indiana, bem longe da transmitida nos musicais de "Bollywood". Por outro lado, Slumdog Millionaire acaba por cair nesse paradoxo "bollywoodesco", pois tem um final bastante kitsch, onde não falta uma cena de dança, bem coreografada, ao som de Jay Ho (vídeo em baixo). Teria o realizador Danny Boyle uma intenção irónica, ou terá cedido à co-realização indiana?


Slumdog Millionaire é um filme polémico na própria Índia, entre outros motivos, por causa do nome Slumdog para os habitantes das favelas (que contrapõem que não são cães) e pelo facto de as crianças que nele participaram, oriundas dos próprios slums, terem sido mal pagas e regressado à origem, sem melhoria das suas condições de vida, depois de correrem mundo, enquanto o filme estava na berra. Estiveram, inclusive, na cerimónia da entrega dos Óscares, em 2009, junto com Danny Boyle, na qual o filme arrecadou oito estatuetas.

Nem sei bem o que pensar da película. Quer dizer-nos que nos devemos manter puros e honestos, não importa o que nos aconteça? Ou que a experiência de vida vale mais do que qualquer escola? Ou, ainda, alertar-nos para uma certa faceta da sociedade indiana? Enfim, pelo menos, tem o mérito de nos mostrar os horrores.



Nota: espero que, em Portugal, também seja conhecido o termo "Bollywood", usado para os musicais made in India.

2 comentários:

Belinha Fernandes disse...

Vi este filme somente a semana passada. Fiquei arrepiada com a cena em que eles cegam o miúdo! Mas eu já tinha ficado arrepiada há muitos anos atrás, com Salaam Bombeei, talvez final dos anos 80!O filme é muito bom, não tem nada a ver com o Slumdog, exceptuando a miséria retratada, a vida das crianças nas ruas e a sua luta diária pela sobrevivência. Fiquei estupefacta por Slumdog ter ganho tanto Oscar. Achei bom mas não tanto!

Cristina Torrão disse...

É mesmo de arrepiar o que se passa em certas partes do mundo. Nem imaginamos...